Atualização editorial · setembro de 2026. Esta análise revisita o conceito de Destination Dupes à luz do overtourism, das novas medidas de gestão de fluxo e das mudanças de comportamento observadas ao longo de 2026.

O “dupe” amadureceu

Quando o termo Destination Dupes ganhou força, a lógica parecia simples: encontrar um destino menos conhecido que oferecesse atmosfera ou experiência semelhante a um ícone saturado. Uma alternativa a Santorini, Veneza, Barcelona ou outro lugar que já concentrava demanda em excesso.

Em 2026, o conceito ficou mais interessante. Booking.com encontrou 29% dos viajantes interessados em destinos alternativos com experiência semelhante à de lugares muito conhecidos. Entre quem busca locais menos cheios, 44% disseram querer evitar contribuir para overtourism.

Isso transforma o dupe de uma curiosidade de conteúdo em um sinal de mudança na distribuição da demanda.

O problema não é popularidade. É concentração

Destinos bem-sucedidos sempre quiseram demanda. O desafio aparece quando visitantes se concentram no mesmo bairro, na mesma atração, na mesma estação do ano e no mesmo horário. A pressão recai sobre mobilidade, moradia, serviços, patrimônio, ambiente e experiência do residente.

Veneza levou a gestão de fluxo a uma política explícita. Em 2026, o município aplicou sua taxa de acesso em 60 dias, cobrando €5 de quem reservava com antecedência e €10 de reservas feitas mais perto da visita. O experimento terminou em 27 de julho de 2026, mas ilustra como cidades estão testando ferramentas para administrar picos e desencorajar visitas de um dia sem planejamento.

No Japão, o governo nacional incorporou overtourism à estratégia de turismo 2026–2030, com foco em distribuir visitantes para regiões menos congestionadas e proteger a qualidade de vida dos residentes. O Monte Fuji também recebeu um pacote específico de medidas para a temporada de 2026.

Expedia mudou o enquadramento: “Beyond the Crowds”

No Unpack ’26, a Expedia deixou de tratar destinos emergentes apenas como os “próximos lugares virais”. A empresa introduziu um Smart Travel Health Check para avaliar se destinos em crescimento estão preparados para receber mais visitantes sem comprometer comunidade e ambiente.

A lista de 2026 incluiu lugares como Big Sky, Okinawa, Savoie, Ucluelet, Cotswolds e Hobart. O ponto estratégico não é o ranking. É a mudança de pergunta: não basta descobrir onde a busca está crescendo; é preciso entender se o destino tem capacidade e governança para transformar esse interesse em valor sustentável.

Clima também está redistribuindo demanda

Há outra força pressionando o mapa turístico. Em julho de 2026, a Booking.com informou que 46% dos viajantes brasileiros pretendiam viajar fora dos períodos de maior demanda, enquanto 33% buscavam destinos com temperaturas mais amenas. Mais da metade dizia considerar alguns destinos quentes demais para visitar na época desejada.

Isso significa que alternativas não surgem apenas porque um hotspot está caro ou cheio. Clima, sazonalidade, segurança e conforto começam a influenciar onde e quando a demanda se desloca.

Um destination dupe não deveria ser vendido como cópia

A armadilha estratégica é promover o destino alternativo apenas como versão barata de outro lugar. Isso gera comparação, reduz identidade e pode criar exatamente o problema que se tentou evitar: concentrar uma nova onda de demanda sem construir posicionamento próprio.

O melhor uso do conceito é como porta de entrada. A comparação ajuda o viajante a entender rapidamente a proposta, mas o destino precisa migrar dessa associação para uma narrativa própria: cultura, natureza, gastronomia, hospitalidade, acesso, preço, ritmo e personalidade.

Para DMOs, o desafio é transformar dispersão em desenvolvimento

Desviar fluxo não é suficiente. Uma estratégia de demanda distribuída precisa responder a perguntas práticas: existe transporte? o trade local está preparado? há inventário de hospedagem adequado? moradores participam do valor gerado? o gasto permanece na economia local? existem produtos fora do hotspot principal? a temporada pode ser alongada?

É aí que Destination Dupes se conecta a destination development. O destino alternativo precisa de produto, distribuição, formação do trade e governança antes de ganhar escala.

A oportunidade para o Brasil é grande

O Brasil tem diversidade territorial suficiente para trabalhar uma lógica de dispersão sem transformar destinos em réplicas uns dos outros. A oportunidade é conectar grandes âncoras de demanda a regiões complementares, criando itinerários e temporadas que ampliem permanência e gasto.

Em vez de perguntar “qual é o nosso Santorini?”, talvez seja mais produtivo perguntar: que experiência temos que o viajante ainda não sabe nomear — e como podemos torná-la legível, desejável e distribuível?

2026 transformou o dupe em estratégia de portfólio

Destination Dupes começou como linguagem de tendência. Hoje, faz mais sentido tratá-lo como parte de uma estratégia de portfólio de destinos: distribuir demanda, reduzir pressão, ampliar escolha e criar novas razões para viajar.

A vantagem não está em copiar um lugar famoso. Está em ajudar o viajante a descobrir valor antes que todo mundo descubra — e preparar o destino para que esse crescimento seja bem administrado quando acontecer.

Fontes e referências

Booking.com · Destination Dupes, jul 2026
Expedia Group · Unpack ’26 / Beyond the Crowds
Comune di Venezia · Access Fee 2026
Japan Tourism Agency · Tourism Nation Promotion Basic Plan 2026–2030
Booking.com · Viagens & Sustentabilidade 2026, jul 2026