2027 começa antes de janeiro
Para quem trabalha com turismo, 2027 já começou. Produto, calendário, distribuição, campanhas e acordos comerciais são decididos meses antes de o viajante embarcar. Por isso, o ponto de partida não deveria ser adivinhar o próximo destino viral, mas observar quais tensões de 2026 estão se tornando estruturais.
Os sinais mais fortes apontam para uma demanda simultaneamente mais pessoal e mais pragmática: o viajante quer experiências que expressem identidade, mas também reage a preço, clima, lotação, confiança e conveniência.
1. A motivação fica mais pessoal
A Booking.com descreveu 2026 como um ano de viagens ultrapersonalizadas. No Brasil, 87% dos entrevistados disseram considerar férias uma recompensa pelo trabalho duro, enquanto novos marcos pessoais — promoção, mudança de vida, bem-estar e até o fim de um relacionamento — aparecem como gatilhos de viagem.
Para 2027, a implicação é clara: segmentar apenas por idade, renda ou origem será insuficiente. Destinos e marcas precisarão entender ocasiões, paixões, comunidades e estados de vida.
2. Clima passa a entrar na escolha antes do preço
Em 2026, 74% dos viajantes globais ouvidos pela Booking.com disseram considerar risco de clima extremo ao escolher tanto o destino quanto o período da viagem. Um em cada três já havia cancelado uma viagem por esse tipo de risco.
Isso tende a deslocar demanda entre meses, horários e geografias. A temporada deixa de ser apenas uma convenção comercial e passa a ser também uma decisão de conforto e resiliência. Destinos com capacidade de trabalhar shoulder seasons e alternativas climáticas ganham vantagem.
3. Grandes eventos continuam criando viagens — mas o entorno importa mais
Esporte, música, cinema e cultura seguem funcionando como poderosos gatilhos de deslocamento. A diferença é que o viajante começa a construir a viagem em torno do evento, combinando estadia, gastronomia, experiências e extensões de roteiro.
O valor econômico não está apenas no ingresso. Está em transformar uma motivação pontual em permanência, gasto e descoberta do território.
4. IA deixa de ser curiosidade e vira camada de planejamento
No Brasil, 63% dos viajantes pesquisados pela Booking.com disseram ter usado IA no planejamento ou durante viagens em 2025, e 80% pretendiam usá-la em 2026. Ainda assim, apenas 18% dos usuários disseram ter utilizado IA para efetivamente reservar.
A Expedia encontrou a mesma tensão em outros mercados: viajantes aceitam IA para sugerir opções, monitorar preços e montar itinerários, mas 68% ainda preferem concluir a compra com uma marca de viagem em que confiam. Em 2027, a disputa não será apenas por aparecer no Google ou numa OTA; será por ser compreendido, recomendado e considerado confiável por interfaces de IA.
5. Menos concentração pode se tornar uma proposta de valor
Overtourism, calor extremo e saturação estão mudando a percepção de destinos muito procurados. A oportunidade para alternativas não é se vender como cópia barata de um hotspot, mas oferecer uma experiência legível, desejável e melhor distribuída.
Para DMOs, isso exige portfólio: trabalhar regiões complementares, novas temporadas, mobilidade e produtos que consigam absorver demanda sem simplesmente transferir o problema de um lugar para outro.
6. O viajante quer eficiência sem abrir mão de confiança
A tecnologia reduz fricção, mas a viagem continua sendo uma compra emocional, cara e sujeita a imprevistos. Quanto mais interfaces automatizadas entram na jornada, maior fica o valor de clareza, suporte e responsabilidade quando algo dá errado.
A vantagem competitiva em 2027 pode estar menos em adicionar mais uma funcionalidade e mais em combinar automação com confiança: informação verificável, políticas compreensíveis, atendimento acessível e capacidade real de resolver problemas.
O que eu observaria agora
Se eu estivesse desenhando a estratégia de 2027 de um destino ou empresa de turismo, acompanharia seis variáveis: motivação, clima, eventos, IA, distribuição de demanda e confiança. Elas atravessam quase todas as tendências superficiais que aparecem nos relatórios.
Tendências são úteis quando ajudam a decidir. O objetivo não é prever o futuro com precisão; é perceber cedo o suficiente quais mudanças já estão acontecendo para construir produto, distribuição e posicionamento antes que elas se tornem óbvias.
Fontes e referências
Booking.com · Travel Predictions 2026
Booking.com · Climate uncertainty and peak-season travel, 2026
Booking.com · IA no planejamento de viagens no Brasil, mai 2026
Expedia Group · AI Trust Gap, abr 2026



